
MF DOOM - Born Like This
A Arca de Noé em 22 faixas: quando o silêncio de MF DOOM se torna um motor.
MF DOOM não desapareceu, ele foi desconstruído e recomposto por outros. Born Like This, lançado em 24 de março de 2009 pela Lex, não é apenas uma compilação póstuma: é uma arca de Noé onde cada faixa é uma resposta à ausência física do criador. A produção, confiada a um trio de grandes nomes — J Dilla, Jake One e Metal Fingers — garante a coerência sonora de um projeto que se pretende como um testamento. Seis das vinte e duas faixas contêm participações especiais, transformando o disco em uma constelação de convidados que reconstroem uma identidade fragmentada pelo silêncio do cantor principal.
Kurious, o herdeiro da traição e do pacto.
A colaboração com Kurious funciona como um fio condutor deste disco póstumo. Longe de ser apenas um convidado, ele personifica a continuidade entre a era Operation: Doomsday (1999) e este lançamento tardio. É em "Supervillainz", a faixa 16 do disco, que MF DOOM e Kurious se unem a Prince Paul para formar um coletivo sonoro massivo. Mas a história deles remonta a muito antes: Kurious já havia sido convidado por MF DOOM na faixa "?" de Operation: Doomsday (1999), estabelecendo uma relação preexistente que dá todo o sentido a esta presença aqui. Em troca, MF DOOM também será convidado por Kurious para a faixa "Benetton" do álbum II deste último, no mesmo ano de 2009, selando um pacto artístico recíproco.
O coro dos impostores: colaborações que reconstroem uma identidade fragmentada.
A identidade de MF DOOM é reconstruída aqui, indiretamente. Em "Yessir!", Ghostface Killah participa na faixa 9, trazendo uma energia bruta e direta que remete às dinâmicas do Wu-Tang em seu auge. Charles Bukowski, por sua vez, assina sua contribuição única em "Cellz Pt. 1" (faixa 10), injetando uma dimensão literária ao projeto. A presença de um poeta americano em um álbum de rap é uma escolha ousada que transforma a própria natureza do disco: não se trata mais apenas de rap, mas de escrita, de narrativa. A produção de Born Like This se baseia em uma estrutura tripartite. J Dilla assina "Gazzillion Ear" (faixa 2) e "Lightworks" (faixa 7), duas faixas que definem o som do disco com seus breaks fragmentados e sua sonoridade analógica. Jake One assume "Ballskin", "Rap Ambush", "Microwave Mayo" e "More Rhymin'", trazendo uma energia percussiva e rítmica que contrasta com as texturas mais suaves de J Dilla. Metal Fingers, por sua vez, está onipresente: ele produz a maioria das faixas, mas também "Still Dope" com StaHHr na faixa 12. Essa distribuição não é aleatória: cada produtor traz sua própria identidade sem apagar a identidade do projeto. Os remixes de "Gazzillion Ear" — três versões distintas, incluindo a de Thom Yorke na faixa 22 — expandem ainda mais essa estética, transformando uma faixa em uma experiência sonora múltipla.
Conclusão: um monumento solitário onde a solidão se transforma em força.
Born Like This não busca esconder a ausência de MF DOOM. Pelo contrário, utiliza-a como um motor criativo. Cada participação especial é uma resposta a essa ausência: Raekwon, Ghostface Killah, Madlib, Charles Bukowski, Kurious — todos estão ali para ocupar o lugar do artista desaparecido. É um disco onde a participação especial não é uma oportunidade comercial, mas um ato político: ele reconstrói a voz do desaparecido por meio de outros artistas. A própria estrutura do disco revela uma intenção curatorial precisa, onde cada produtor define um território sonoro distinto. Se J Dilla e Jake One trazem suas assinaturas em faixas icônicas como "Gazzillion Ear" ou "Ballskin", é Metal Fingers que garante a coerência global do álbum, produzindo a maioria das faixas e sendo o único creditado em muitas delas. Essa divisão não é aleatória: ela transforma Born Like This em uma obra coletiva onde cada participante contribui com sua própria identidade sem apagar a identidade do projeto. As versões remixadas de "Gazzillion Ear", assinadas por Dave Sitek & Jneiro Jarel, Dr Who Dat? e Thom Yorke, expandem essa estética, oferecendo três versões distintas que transformam a faixa original em uma experiência sonora múltipla, prolongando a experiência de audição além das vinte e duas faixas iniciais. Essa transição para uma estrutura independente não é apenas econômica: ela reflete uma vontade artística de retomar o controle sobre a divulgação de seu legado. A presença de convidados tão diversos como Charles Bukowski, Prince Paul ou Slug em faixas como "Cellz Pt. 1" ou "Supervillainz" confirma que este projeto é muito mais do que uma simples homenagem: é uma reconstrução ativa do universo sonoro do rapper, onde cada colaboração participa na redefinição das fronteiras do gênero. Lançado pela gravadora Lex em março de 2009, Born Like This se posiciona entre dois álbuns anteriores de MF DOOM — Operation: Doomsday (1999) e MM..FOOD (2004) — como um epílogo necessário. Não se trata de uma perpetuação, mas de uma extensão: cada faixa é uma resposta à pergunta que se faz após o desaparecimento de Daniel Dumile. Como continuar? Convidando. Ouvindo. Deixando que outros carreguem sua voz.
Ficha técnica
- Lançamento: 24 de março de 2009 - Gravadora: Lex - Faixas: 22 - Abertura / Encerramento: Supervillain (intro) / Gazzillion Ear (Thom Yorke remix) - Participações especiais: Raekwon, Madlib, Ghostface Killah, Charles Bukowski, StaHHr, Kurious, Mobonix, Posdnuos, Prince Paul, Slug
🎬 Os videoclipes do álbum
17 clips · reprodução contínua
Faixas
- 1
- 2
- 3
- 4
- 5
- 6
- 7
- 8
- 9
- 10
- 11Still Dopefeat. Stahhr
- 12
- 13
- 14
- 15
- 16
- 17
🔥 Os temas que estão a bombar
Classificação Hip-Hop/R&B · semana de 12/10/2026
- 1Solar Eclipse— Drake & Don Toliver
- 2Quebec— Drake
- 3I Just Might— Bruno Mars
- 4Cold Shoulder— Drake, Don Toliver & Yebba
- 5Janice STFU— Drake
- 6Dead Fresh— Lil Baby
- 7Classic— Drake
- 8What You Need— Tems
- 9Cinderella— Mac Miller Featuring Ty Dolla $ign
- 10So Good— Jhene Aiko Featuring Kendrick Lamar


